segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Tempo.

O que diferencia um segundo do outro? O próximo do anterior? E, o que diferencia uma idade da outra? Porquê somos sufocados pelo tempo que ainda está por vir? O medo de envelhecer seria sinônimo de ter medo de viver? Porquê os anos pesam tanto se o instante presente não possui valor algum?

O passado sempre tão presente não nos permite ser livres, algum remorso, engano ou erro é presença constante quando, por coragem, tentamos lembrar a vida que já passou. O passado está ligado ao futuro de tal forma que este é imaginado como uma mera extensão do outro, com todos os remorsos, enganos e erros à se repetirem. À isso Nietzsche denominara como Eterno Retorno e assim enraizou na mentalidade do século XX a idéia de sermos escravos da existência.
Não creio em Nietzsche como um culpado, o pobre coitado é mais uma vítima que indentificou seu algoz. Porém, muito menos creio no próprio Nietzsche, com seu egoísmo dramático de querer escravizar a humanidade perante as suas próprias idéias de escravidão existencial. Prefiro a esperança de Beethowen, que em uma de suas mais belas sinfonias proclamava a liberdade do homem:

"Oh! O Tempo despedaçado! Viva a Alegria! Ficou para trás, homens! O Passado está morto tanto quanto os nossos antepassados!"

Assim que me lembro das suas palavras, talvez as tenha distorcido. Uma péssima mania de diluir a realidade em meus sentimentos. Nunca acredite em mim, tenho uma noção do mundo e das pessoas tão pessoal que os relatos da minha vida tem um fortíssimo apelo ficcional. O medo que tenho do tempo certamente é o resultado de algum pensamento qualquer que tive algum dia e que com o passar do tempo, não soube mais distinguir o que realmente se passa comigo. Pior! Tenho uma certa obsessão pelo pensamento, uma experiencia mental possui valor muito mais forte do que um acontecimento totalmente real e externo.
Sou capaz de odiar e amar pessoas através de idéias. Sou capaz de não poder mais diferenciar um pensamento antigo de um acontecimento puro e simples. Um dos exemplos a respeito com que encontro uma noção clara sobre isso é a morte do meu primo. Daqui há seis dias completará 13 anos de sua morte. Mas não foi a morte dele que me atormentou a infância, aliás, hoje nem creio que a minha infância tenha sido atormentada, aos poucos minhas lembranças estão carregadas de otimismo e inocência. O que me atormentou, foi as várias idéias que tive no decorrer do tempo, sempre me pondo como figura central de uma desgraça. Hoje, compreendo isso como uma atitulde egoísta de ser o percussor de uma dor familiar. Com o passar do tempo, fui modificando o que de fato aconteceu, o que de fato disseram a respeito do que aconteceu, sempre usufruindo da imaginação para aumentar a minha punição. Hoje, aprendendo com a psicanálise a romper a fronteira da influencia que a imaginação infantil teve sobre a minha vida, descubro que inconscientemente eu menti para mim, e consequentemente para todo o mundo. E descobrir isso dói, torna-me estranho, assim como uma criança que pela primeira vez tem noção de seu corpo e não é mais capaz de correr nu pela casa; A criança aprende a ter vergonha e a se comparar com outras crianças, dando inicio a vaidade e auto-estima.

O Tempo é o principal modelador da alma humana... é ele que nos transforma, e que determina o nosso fim...

Farei 20 anos e aprendi a ter outro tipo de vergonha; vergonha de ainda não ter encontrado um caminho, um próposito. Vergonha de não possuir planos concretos; Essa vergonha também me leva a comparar-me com o outro. Talvez não exista uma grande diferença, mas sou um autocrítico tão egoísta que me sinto inferior por não ser superior. Falar sobre o tempo, sobre a mentira, sobre a falta de próposito é fácil. Mas falar sobre o próprio egoísmo é a tarefa mais dolorida e vergonhosa que existe. Não sou capaz, ainda. Por isso, para por aqui.